terça-feira, 22 de maio de 2012

O que eu nunca disse

Hoje escrevo em português por que é o idioma que mais utilizei em minha vida até agora, por que é o que eu mais gosto e por que intensifica os sentimentos que me levaram a escrever.
Levantei como faço todos os dias, porém, hoje não é um dia como os outros. Hoje é um dia daqueles que você se sente deslocada do mundo, nada faz parte do seu cotidiano, você se sente menos mulher, menos capaz, menos feliz e, sobretudo... Se sente menos você.
Algum dia todo ser humano vai passar por isso. É bem melhor quando isso ocorre na infância, mas esse não foi o meu caso. Liguei o notebook e coloquei músicas aleatoriamente para tocar enquanto eu preparava meu café.
A música tocando ecoa por toda a casa vazia estava de frente para o quintal, vendo a chuva cair sobre a grama recém aparada. Me bateu um vazio tão grande, um aperto, senti minha pele arrepiar, um incomodo imenso que eu não sabia de onde vinha, pus-me a chorar na mesa do café.
Hoje é um daqueles dias que você sente que está envelhecendo, consegue encarar tudo de uma forma diferente. Sua vida possui marcas e você se da conta de cada uma delas. Eu me sinto assim hoje, o que não é comum.
Vejo que tudo o que fiz, tudo o que li, faz algum sentido. Fui ao Brasil recentemente e essa viagem ativou memórias e sentimentos ou sensações que eu jurava ter esquecido ou até mesmo superado. Sou rude, fria e seria, geralmente apelidada de feminista revoltada, não digo que não mereça este rótulo, no entanto, hoje a sensibilidade invadiu minha alma. Somente as melhores pessoas do mundo são sensíveis, somente os mais capazes, porém, todos nós inclusive eu, temos um dia desses para nos vangloriarmos.
Penso em tudo o que deixei para trás, pela segunda vez. Penso se serei eu capaz de conviver com o sentimento interrompido, avistando-o ser feliz, crescer e descobrir-se longe de mim.
Sei que o mundo não vai acabar só por que você se foi, de novo. E ao contrário do você me diz, isso não me deixa mais forte. Lembro dos cardápios que lemos juntos, das cervejas que tomávamos no estacionamento do shopping todo fim de semana, lembro que escreveu meu nome no seu braço com a caneta da atendente de caixa, lembro que disse que adotaria uma garota japonesa e colocaria nela o meu nome, lembro de ter me ligado as duas da madrugada chorando por ter terminado o namoro, e me lembro que fiquei feliz.
Não é de hoje que penso em como seria nossa vida se estivéssemos juntos, se o destino quisesse ter nos dado uma mínima chance. Me odeio por ter tatuado uma carpa na coxa só para cobrir seu nome que eu havia feito anteriormente. Fico pensando se teria sofrido menos caso tivesse investido mais em você e dado menos atenção à minhas convicções e ao scrap que recebi da sua ex. Isso se parece muito com lamentações, mas são incertezas, reflexões intensivas de uma cabeça feminina perturbada e acelerada. Pela terceira vez essa semana não vou ao trabalho, e pelo mesmo motivo... você. Talvez eu venha a fazer parte do índice de desempregados, mas não perderia nada que me arrependesse depois, isso já foi feito antes. Segurei durante quatro anos, mas hoje não deu mais. Eu precisava colocar para fora o que sinto, isso estava me sufocando, estava prejudicando meu sono e minha amizade com você. Hoje chorei e como nunca, desejei que você viesse enxugar minhas lágrimas, desejei como nunca, que viesse preencher esse vazio que sinto e que só cabe você. Desejei que nunca o tivesse conhecido e com todo o meu amor, te odiei e me odiei na mesma proporção. Não existe oportunidade perdida e sim, falta de novas tentativas, mas além da sensibilidade, a dúvida também recostou-se sobre mim.
Será que tenho o direito de acreditar que posso te fazer feliz? Não seria muita presunção minha, crer que você depende de mim? Será que eu deveria te-lo ajudado a voltar com a menina por quem era apaixonado, mas que todos viam que ela te chutaria tão logo que esquecêssemos seu rosto? Mesmo sabendo disso eu os uni, é culpa minha você quase ter morrido? Todas essas coisas me fazem sentir menos mulher e mais professora, mais administradora e muito mais chefe. Me sinto qualquer coisa, menos eu mesma.
De nada vai adiantar tudo isso, porque estamos separados pelo mar, continentes distintos nos empurram para destinos distintos. Mesmo não acreditando que isso possa ocorrer, eu desejo que um dia você possa entender e reconhecer o quanto te amo. Desejo que entre pela porta, jogue a mochila no chão e diga que veio para ficar. Estarei aqui, tão certa quanto a Lua no céu, esperando que o amor possa nascer em seu coração e que dessa vez ele seja por mim. Juro, não são lamentações, mas são recordações e reflexões regadas à lágrimas, músicas e muita chuva.

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